3.31.2004

O quarto está vazio (já não é meu), outro me espera, pelo menos dois (assim creio) mas o cão não vem de certeza.

3.27.2004

Num sítio fazia sol, no outro chovia e não parava.
Duas pessoas em sítios diferentes a olhar para o mesmo sitio.
No sítio onde chovia a pessoa não usava o capuz para proteger os já molhados cabelos, enquanto a outra protegia os cabelos dos nocivos raios solares a prevenir a dor de cabeça que decerto se avizinhava.
Ao longe o horizonte sorria de modo diferente para cada um deles.
Uma ténua pélicula de tempo os separava mas insuportavel de se aceitar.
Um atirou-se ao rio, não ficou mais molhado e lá permaneceu para o todo sempre preso. O outro, atreveu-se a tirar o capuz e a permitir que os raios lunares queimassem as suas faces.
- estás chateado?
- não, porquê?
- parecias...
- estou cansado, estou praticamente a dormir em pé...
- ...(suspiro)...
- ...
- ...(beijo). Ainda bem.

3.24.2004

No meio da conferência do Tony Blair em Portugal alguém perguntou porque ocorria uma manifestação à frente da assembleia da republica, a que rapidamente responderam com: “é uma manifestação de estudantes do ensino superior”.
Duas questões pairaram no ar:
- será que os estudantes sabiam da conferência com o primeiro ministro Tony Blair?
- será que Tony Blair acreditou no que lhe disseram?

3.23.2004

Uma pérola, mais uma e faz par. Na verdade esse par forma uma unidade a que se chamam brincos, um para cada orelha. Qual é o seu valor? Relativo, muito relativo quando falamos neles num contexto social. E neste caso? Creio que provocou uma ruptura, uma ruptura social. Provocou algo que não era suposto acontecer, algo que não existia nas regras de interacção daquele grupo social. O que é que isso me interessa? Nada, nada. É verdade.
Podia ser assim a descrição da “rapariga com brinco de pérola” mas não é isso que quero transmitir.
Esperava muito pouco e isso é sempre bom quando se vai ver um filme, pode ser que ele nos surpreenda. Aconteceu. O filme retrata o sacrifício que é necessário fazer pela arte, não só o artista tem que sofrer para puder produzir (a dor da beleza que não possui e apenas contempla e tenta transmitir a outros através da sua pintura), como os sacrifícios que os outros têm que fazer para que ela ocorra, a produção de arte.
Uma simples doméstica contratada entra no mundo da etérea beleza, sem o saber, altera o olhar sobre ela e por arrasto a do artista, como para além disso oferece-se como sacrifício para que ela, a obra, possa ser produzida – no fim acaba por ser despedida.
Alguns apenas verão no filme uma história de um amor proibido e que nunca é concretizado, apesar da sua eminência, mas creio que isso é falhar o objectivo do filme. Ele é sobre a arte, como é produzida, quais os factores que a desencadeiam, porquê, de onde eles vieram, o que é necessário sacrificar para ela existir, quem ordena o que deve ser feito, qual o real papel do artista e d@ mode@ sobre ele e a sua obra.
E porquê um brinco de pérola? Porque aparece na orelha de uma simples empregada, o que era uma heresia na altura. Usar algo que não estava nas suas poses era como que roubá-las do seu dono, mesmo sem o acto material a ele associado. E porquê tanta ousadia? Porque o artista assim o quis, a modelo anuiu e porque fazia a diferença. E aqui entra a questão da ruptura.
Um filme engraçado de ser visto, que com um pouco mais de atenção – pelo menos com mais atenção que as pessoas que estavam ao meu lado no cinema e só diziam futilidades, talvez por não haver sangue, mortes ou sexo que as atrai-se – pode captar algumas das questões que referi. Para além disso o filme, do princípio ao fim com a excepção uma ou outra cena, parece uma pintura em movimento.
É sempre estranho a partida, o arrumar as coisas em caixotes que nunca mais acabam – como é que acumulamos tanto pó e tralha ao longo da vida e da qual não conseguimos desfazer –, ver o quarto a ficar cada vez mais vazio, a deixar de ser nosso.
Como companhia um nome bastante duvidoso “Earth is not a dead cold place”. Tenho muito dificuldade em acreditar neles mas eles esforçaram-se e não largam o meu leitor de cds. Existem momentos em que a esperança, a que nunca habitou em mim, parece reaparecer para me animar com explosões no céu.
Enquanto isso lá vai ficando cada vez mais pó à mostra. De onde veio ele?

A operação que as tropas Israelitas fizeram ontem e na qual mataram, sem nenhum pudor, um dos líderes dos Hamas é uma nítida agressão aos princípios dos quais defendo para o mundo ocidental – liberdade de expressão e modos de acção democrática – e condeno a sua ausência nos terroristas que fizeram os atentados no 11 de Setembro e 11 de Março. Em ambos existe uma falta de respeito pela vida humana. Por mais ódio que tenha a uma pessoa ou um grupo restrito de pessoas que agem através da violência com o mero intuito de me destruir e aos meus princípios, se agir na mesma moeda (regra de Talião – velho testamento) tornar-me-ei igual aos que condeno e deixo de ter alguma moral para os criticar.
Há muito que os Israelitas perderam a moral nesta história, este foi apenas mais um exemplo, do Hamas nem sequer preciso de recordar os muitos atentados que têm perpetuado em Israel. Infelizmente aos olhos da grande América o que Israel faz é apenas uma clara e justificada reacção à agressão a que estão sujeitos e fecham os olhos perante a humilhação que estes perpetuam sobre os Palestinianos há anos.
Quem tem razão? Nenhum deles seguramente, mas atribui-las a um dos lados é que não.
Seguro de estar a plagiar alguém afirmo:
“Não sei o caminho mas sei que por aí não é”

3.21.2004

Uma cereja caiu do céu, apanhei-a, saboreei-a e gostei. Será da Primavera?

3.20.2004

Dia 20 de Março, um dia antes da Primavera, um sol que aquece a nossa gélida carcaça e as narinas são fustigadas com este aroma, totalmente primaveril, do cio vegetal.

3.19.2004

O aroma do café pairava no ar juntamente com o pólen caracteristico da primavera. Ao longe via uma grande ponte, em construcção, sobre um pequeno rio. O sol batia no lado direito da minha face, aquecia apenas o suficiente. A conversa era interrompida por uns minutos de leitura descomprometida.
Nada melhor que uma tarde primaveril e solarenga no varandim do Justiça e Paz.

3.18.2004

Estou orgulhoso, sinceramente orgulhoso. Obrigado NEA.
Nestes momentos lembro-me dos dois versos iniciais de uma estrofe a meio da Tabacaria e desejo não vir a sentir tudo o resto que Álvaro de Campos descreve nessa mesma estrofe,

“Fiz de mim o que não soube,
E o que podia fazer de mim não o fiz.
O dominó que vesti era errado.
Conheceram-me logo por quem não era e não desmenti, e perdi-me.
Quando quis tirar a máscara,
Estava pegada à cara.
Quando a tirei e me vi ao espelho,
Já tinha envelhecido.
Estava bêbado, já não sabia vestir o dominó que não tinha tirado.
Deitei fora a máscara e dormi no vestiário
Como um cão tolerado pela gerência
Por ser inofensivo
E vou escrever esta história para provar que sou sublime.”
(em “Tabacaria” Álvaro de Campos)

3.16.2004

Desde que ocorreu o atentado do World Trade Center que muitas cabeças pensantes pretendiam confundir este tipo de atentados terroristas ao de outros terroristas. Daí dizerem que terroristas são sempre terroristas, todos iguais sem nenhuma diferença e todos alvos a abater. No alvo reside uma grande diferença, enquanto uns sabem diferençar a população em geral dos específicos, que reivindicam uma liberdade ao qual dizem ter perdido e deviam ter o direito, e outros que apenas pretendem destruir os valores dos outros, em detrimentos dos deles, os quais pretendem impor a todos os outros demais.
Sempre me desgostou o discurso maniqueísta de certas personagens políticas e do abuso da palavra terrorismo para designar ovelhas negras que pretendiam banir dos seus rebanhos não ao mando da liberdade de expressão mas de aproveitamento das novas orientações políticas mundiais, fazendo exactamente o oposto ao qual os grandes líderes mundiais compactuaram a mando de uma nova estratégia mundial totalmente focada no problema do terrorismo.
Para além disto uma coisa é o terrorismo com base num fervor religioso, ao qual o nosso mundo ocidental actual já passou – espero eu – e as lutas étnicas que alguns grupos reivindicam. Uma coisa é a ETA, por mais que a reprove, outra é Israel (um país imposto pelos ocidentais no médio oriente sem nenhuma reivindicação geográfica) e a palestina e muito diferente é a Al Quaeda. Como sempre as visões maniqueístas têm o dom de confundir algumas arvores com toda a floresta.

PS: Creio que devo acrescentar uma pequena coisa neste post. Quando digo que os Judeus não têm uma válida reivindicação geográfica não estou a negar que eles possuem uma origem que passou por aqueles terrenos arenosos a que agora se chama Israel. Os judeus como povo itinerante nunca se fixaram durante muito tempo em uma região específica (por diversas razões que vão desde a vontade de Deus quando os mandou vaguear durante anos a fio pelo deserto, como por diversas perseguições a que foram votados ao longo da sua existência, como pela sua vontade de se espalharem pelo mundo fora – apesar de Deus lhes ter prometido a terra de canaãn).
Esta é a explicação para a minha denominação de povo sem validade em termos de reivindicação geográfica mas não nego com isto a existência do actual estado de Israel que como todos o outros países são criados pelos homens e nunca o são por mero valor intrínseco que adere na pele dos povos e diz de onde eles são, se é que têm que pertencer de algum lugar especifico.

PS2: sinceramente não sei como se escreve a terra prometida aos judeus e na qual Moisés não pude entrar. Outra coisa, muito mais se podia falar sobre o conceito de estado mas isso já seria areia demais para a minha cabeça e tornar-se-ia num post deveras aborrecido. Eu já me encontro aborrecido com ele.

Atrofia-me a cabeça estar horas a fio sem quase nada dizer e ainda por cima só assistir sem realmente saber o que se está a passar. Dali saio sem conseguir falar às banais pessoas, nem sei o que dizer…. Talvez:
“os olhos da enfermeira eram lindos de morrer”, só isso!

3.15.2004


Jemima Stehli é uma fotógrafa que gosta de questionar através da sua arte. Ela consegue-o através da inversão dos papéis entre o crítico de arte e o artista, de jogos entre a nudez e o erotismo, desfragmentando os cânones a seu belo prazer e pelo uso do corpo. O modelo que mais usa nas suas fotografias é o do seu próprio corpo sem qualquer pudor perante os espectadores ou perante os críticos a quem convida para a verem despir-se na sua frente e tirarem as fotografias que quiserem. Há uma visível subversão dos papéis produzida por este modo de fotografar: poderão os críticos a partir do momento em que participam na feitura da obra voltar a ter alguma validade em termos de crítica artística? Não serão eles sempre assim, tal como o artista, moldando-se aos gostos destes fazedores de cânones? Ou será que afinal são os artistas que moldam os gostos dos críticos ao inseri-los dentro dos seus sistemas de produção e reprodução de sentido? Quem é o quê afinal no mundo das artes?
A exposição no Centro de Artes Visuais de Coimbra convida a este tipo de reflexões, as fotografias de Jemima Stehli brincam com o papel do indivíduo, subvertendo as afirmações do que é ser artista/autor e questionando os modos de validação intelectual do ser-se artista. Como Barry Schwabasky refere: “Só um louco tomaria um crítico de arte como uma autoridade em qualquer assunto”. No final, não é só esta reflexão que fica suspensa, fica também a pergunta que se dirige a nós: “Qual será o meu papel de espectador no meio disto tudo: afinal onde está a arte?”
Tocou as cinco e meia da manha e acordou-me do meu tranquilo sonho, olhei, rejeitei a chamada, sem nenhum ressentimento, retirei o som e continuei o meu agora estragado sono tranquilo. Esqueci-me do que sonhava e seguramente continuei por um novo que também não me recordo, apenas permaneceu os resquícios do som de um telemóvel a tocar, TRIM, TRIM, TRIM, um interminável TRIM, TRIM, TRIM…um sentimento de raiva perante aquele objecto e por quem o tinha activado…TRIM, TRIM, TRIM… raiva.

3.09.2004


Imagina-te num mundo diferente. Espera, não tão longe, ainda na Terra.
Um sítio onde não conheças ninguém, as que conheces apenas falas pelo telefone a horas trocadas sob algo sem sentido nenhum para a tua vida e nunca dizes o que te vai pela cabeça. As pessoas à tua volta falam uma língua de que nada percebes e nunca virás a perceber nem te esforças para tal. O sono está trocada e sempre em atraso.
Encontras alguém no elevador que te faz companhia sem o saber, sorri inconsciente disso e sai, ela voltará. Para quê dizer alguma coisa quando nada se compara aquele primeiro sorriso?
Não consegues comunicar com ninguém à tua volta, pelo menos é te muito difícil e realmente não os compreendes, não estás com paciência para isso. Sentes-te por isso perdido e incompreendido.
O mais estranho é que te sentes bem ao pé daquele sorriso onde o silêncio se instalou. Aquele silêncio tão acolhedor.
Nada sabes dela nem ela de ti, nada de íntimo, mas para que serve realmente isso?
Não te atreves a quebrar o silêncio, porque é aí que reside o encanto.
Alguém te pergunta: “como podes sentir isso unicamente através do silêncio?”
Tu calmamente respondes: “nunca o sentiste?”
(Caso não perceberam é o filme "Lost In Translation" de Sofia Coppola)

3.07.2004

O tempo passa, os sítios onde se vai agora são outros - até porque os antigos já não existem -, as pessoas mudam, novas aparecem mas em certas ocasiões e em certos lugares as pessoas que nos rodeiam são as mesmas que encontrávamos em lugares antigos, daqueles que já não existem, mas mais velhas. Nestas ocasiões apetece-me chegar ao pé deles e perguntar:
"Que tens feito nestes últimos anos? Já não te via desde os tempos do States."

3.01.2004

AS COISAS SECRETAS DE JEAN-CLAUDE BRISSEAU

Um filme interessante a partir da segunda meia hora de filme onde a narração encontra uma linearidade que nos agarra à história e percebemos que o início insípido do filme ganha forma e conteúdo.
Não é uma mera estória sobre o amor, é um estória que retrata duas amigas que pretendem domar o indomável, o amor, para ascenderem socialmente – pelo menos assim nos pretenda dar a entender o realizador.
Na verdade nem aquela que se diz mestra na arte de amar e de conseguir domar os seus sentimentos tal como os dos outros para seu proveito, nunca o consegue fazer e está totalmente sob o jugo de um amante com uma mente maquiavélica e sádica. Mas não se pense que o amante é que tem a situação controlada, porque na verdade o feitiço vira-se contra ele, como sempre.
No meio temos uma observadora, uma marioneta nas mãos da amiga e do patrão rico, mas é aquela que sem saber porquê nem como é a que sofre menos e a que fica a ganhar no final.
Talvez a moral da estória seja que no amor só “ganha” quem o vir de uma forma ingénua e aceite o seu jogo sem o questionar muito.
Em duas noitadas seguidas uma Luz percorreu os mesmo trilhos que os meus, como uma lapa grudada a uma rocha a (per)segue para todo o lado.
Ela bem tentava iluminar a escuridão apontando o seu jacto de luz para as estrelas, a ver se as conseguia visualizar melhor mas não resultava. Frustada com isso apontava o foco de luz para as nossas caras, saturando-as da sua aborrecida Luz monocrómica. Por mais que se pedisse ela persistia em nos encontrar no meio da escuridão onde desejávamos permanecer incógnitos – principalmente a ela.
Alguém perguntou-me porque não escrevia nada no blog desde há algum tempo.
Na altura respondi com um silêncio, hoje continuo sem saber porquê.