4.29.2004


Várias lentes, várias penas, várias realidades paralelas que correm ao mesmo tempo. Numa morresse, na outra continuasse vivo, a água não os atingi e os outros fogem dela ou são expulsos por pessoas de preto, com penas nos chapéus, de anjos que voavam em bandos mas deslumbrados pelo mundo dos mortais deixaram-se apanhar por dardos vindo de homens munidos de espingardas.
Quando acordaram já não voavam, como Icarus até ao sol, apenas conseguiam estar estatelados no chão a observar os seus companheiros e as pessoas a irem embora. já ninguém quer saber destas asas caídas. Os anjos como as pessoas sofrem, são desacreditados, crescem e morrem quando não têm asas. As cicatrizes não desaparecem e ficam para sempre com eles nas suas costas e almas.
O homem das lentes tem as mãos de ferro e não consegue sentir a delicadeza que um anjo transporta…nas suas penas.
De um filme que não era suposto ser visto, algo que surpreendeu surgiu, e dele nasceu este pedaço de texto que relata o bizarro mundo deste filme, com o também estranho nome de “Northfork”, uma cidade que está prestes a desaparecer para dar lugar a um grande lago, onde pessoas iram navegar e peixes irão viver, nas casas onde outrora eram de pessoas…. No meio surgirá uma casa construída em cima de um casco, como a arca de Noé… mas apenas com animais empalhados.

4.26.2004


Tás descansado em casa sem nada para fazer, lês o jornal, desculpem, na verdade lês os anúncios de trabalho porque queres ter um pouco mais de dinheiro na carteira para comprar os últimos ténis da moda, comprar um carro, casa ou um computador, não interessa, queres mais dinheiro, para quando abrires a carteira não te sentires deprimido sem ele.

Encontras por mero acaso, quando já nada previa o seu encontro, “queres ser cobaia? Dinheiro fácil sem nenhum risco? Apenas queremos um pouco do seu tempo e ser você mesmo, mais nada!”. Como estás farto da tua profissão, o dinheiro é mais que fácil, o instituto que a protagoniza o anúncio é oficial, não deve haver nenhum problema.
Mas cobaia para quê?
Um dia adormeces e acordas dentro de uma prisão, tu és um prisioneiro ou um guarda e tens que te comportar como tal para o bem do teu desempenho, ao qual te comprometeste devido ao dinheiro que receberás por ele.
A situação é temporária mas as regras são para ser cumpridas durante esse período de tempo estipulado e como sempre uns as ditam, sem as questionarem e os outros que as têm de suportar e questionam-nas sempre. Fora disso existem câmaras de vigilância que controlam todos os movimentos dos guardas como dos prisioneiros e as suas reacções. Consoante a evolução das respostas aos comportamentos de cada um, são inseridos novas regras para serem cumpridas e para serem mandadas cumprir. Qual será o seu objectivo? Saber até que ponto vai a tolerância humana? A bestialidade dos homens perante os seus iguais quando estão em posições de poder? A partir de que momento é que o homem deixa de se puder vergar e quebra-se como um palito.
Assim poderia ser a sinopse deste filme alemão, uma boa experiência mas não esperem que os actores tenham complacência para com vocês que apenas estiveram a vê-los sem nada fazer.

Para além do título pouco cativante creio que a palavra "principiantes" também se ajusta a este realizador, Lone Scherfig, que realizou um filme banal que tenta mostrar em alguns momentos deste filme a crueza da vida de algumas pessoas na Dinamarca mas ao mesmo tempo barra tudo com romances que nada ficam atrás dos protagonizados por 99% dos filmes de Holywood.
Um filme ainda feito segundo os principios do dogma 95 mas sem nenhum fulgor que caracterizou esta vertente cinematográfica, nem a história, nem a filmagem nua e muitas vezes crua que não tem nenhum despudor em mostrar o quanto horrivel é vida de algumas pessoas.
Não tenho apetência para apenas filmes duros e a roçar a bestialidade humana que se encontra no dia a dia mas este filme também não consegue ser uma ilusão bem conseguida de como deveria (creio que nunca é possível) ser a vida com os nossos outros companheiros mortais.

4.20.2004

Surgiu de algo e dele surge algo que nos atinge, a música. Ele esteve na galeria Zé dos Bois num concerto intimista onde apenas umas meras quarenta pessoas o escutaram, muitas menos que aquelas curiosas que passavam do outro lado dos vidros durante todo o concerto e podiam ver tudo... menos a música. Chris Brokaw, ontem pelas 23h na galeria Zé dos Bois... ainda vão a tempo para o seu segundo concerto, desta vez no Porto no café o meu mercedes.

4.18.2004

Para quem tentar perceber, minimamente, o que se passa na cabeça dos "de lá"... a não perder esta entrevista.
Um pouco de cor......


Fiquei a pensar....

"Que maravilha,raridade hoje em dia encontrar alguém que comunga de que os amigos não morrem,apenas estão longe e vivos no pensamento"



"I've been waiting for a guide to come and take me by the hand
Could these sensations meke me feel the pleasures of a normal man?
Thses sensations barely interest me for another day
I've got the spirit, lose the feeling, take the shock way
It's getting faster, moving faster, it's getting out of hand
On the tenth floor, down the back stairs, it's a no man's land
Lights are flashing, cars are crashing, getting frequent now
I've got the spirit, lose the feeling, let it out somehow
What means to you, what means to me, and we will meet again
I'm watching you, I'm waitching her, I'll take no pity from your friends
Who is rigth, who can tell, and who gives a damm right now
Until the spirit new sensations takes hold, then you know
Until the spirit new sensations takes hold, then you know
I've got the spirit, but lose the feeling
I've got the spirit, but lose the feeling
I've got the spirit, but lose the feeling
Feeling, feeling, feeling, feeling, feeling, feeling, feeling"
Joy Division "Disorder", 1979

4.16.2004

"let's go said he
not too far said she
what's too far said he
where you are said she"
e. e. cummings
"I have all the time in the world to make you mine" cantavam os Depeche MOde através do meu radio e isso lembrou-me de alguém que eu realmente não conheço.
Boa sorte! (O que quer que isso seja).

4.15.2004


Fernando Lemos..... a porta indiscreta....
Onde será que esta escada me leva?
Quererei mesmo ir por este caminho?
Terei sido eu mesmo a escolhe-lo?
Onde é que me arrependerei mais?
Indo ou permanecendo onde estou agora?

Na brancura imaculada que o trilho predispôes a nos transmitir,
Infiltra-se um escuro de abismo,
de onde nada se sabe.
Estarei preparado para receber os dois lados?

Se ao menos soubesse:
"Não sei o caminho, mas por aí não é!"
Consegues abrir a minha porta?


Duvido...

4.14.2004

Apenas via a vida,
Pequeno fio de luz.

Nela encontrava,
Luminosidade e a essência de ser.

Do lado de cá,
sempre escuro,
o sol batia sempre do lado oposto da porta.

Um dia abriu uma frecha,
sem tentativa de fuga,
mera experiência.
Ofuscou-lhe a vista,
cegueira branca.

Voltou-se para dentro,
e nunca mais abriu a porta a estranhos.
Será o mundo apenas uma grande jaula?
Predador sentimentalista

Sente, depois de devorar a vitima, a sua falta, e principalmente, ressente-se da companhia.
A digestão é mais difícil, e em vez da barriga cheia, como pretendido, sente-se vazio de morrer.
Apenas os colegas sentimentalistas, fazem alguma coisa para acalmar a saciedade, com as suas piadas recalcadas e risos trocistas. Também eles, sentem a barriga vazia, não da miséria física, essa apenas mata o corpo e mantém-nos vivos e a sofrer.
Dura pouco, este estado de letargia, o olhar brilhante e distante que não fixa nenhuma presa, existe sempre alguma pele mais reluzente, olho mais vivo, um movimento apelativo, que desperta a alma do predador, mais forte que qualquer coração quebrado e volta ao mesmo.
O predador sentimentalista, gosta de cha-fur-dar na sua própria miséria, e para isso, tem de a perpetuar, num acto contraditório, mais que “normal” na sua sociedade primitiva, que nunca deixou de existir e apenas se revestiu de outras peles e camuflagens, no mundo moderno dos parques selvagens, para turista ver.
E CUIDADO, que eles andam à espreita: o turista, o empresário do parque, a vitima e o predador sentimentalista. Não se deixe enganar pelo olhar cativo do predador sentimentalista, ele não é seu amigo, tu és a presa, só dão por ti, quando já paras na barriga, a desencadear um vazio, passageiro, que alimenta o ciclo eterno da saciedade devoradora do predador sentimentalista, pela piedade de si, da miséria do seu estado, sempre que engole a sua presa sentimental, dentro de si, naquela barriga esfomeada, sempre vazia, como ele de emoções, por muito tempo.

4.10.2004


A tradução do título do filme poderia ser "O Coelho Castanho" mas será que isso alteraria algum significado ao filme? Ou melhor, será que o título tem alguma coisa haver com o filme? E indo ainda mais longe será que isto é filme arte porno?
Parece que nada se conjuga, que nada se relaciona mas na verdade Vincent Gallo joga com isso e com a ideia de ser realizador dos seus próprios filmes sem estar a mando de ninguém. Se calhar é isso que ele quer com este filme, demonstrar que pode fazer o que quer e isso será sempre visto pelo público. Talvez tenha razão.
Voltando ao que interessa, o filme, é sobre alguém que conduz motas de corridas que por causa disso vagueia sozinho pela grande América numa carrinha Honda onde transporta a sua mota. Pelo caminho encontra pessoas, muito poucas, só mulheres. Com elas enceta rituais de acasalamento nunca concretizados por ele, nunca percebemos porquê até há altura em que começa a aparecer a face de uma rapariga, a Daisy.
A Daisy tinha um coelho castanho, ele procura coelhos em algumas lojas de animais mas nunca compra nenhum. Pelos vistos a Daisy gosta de Crack mas ele não diz nada. Ela aparece no seu quarto e ele nada diz. Ela faz-lhe uma mamada (totalmente explicito) e ele chama-lhe nomes, diz que ela é uma galdéria que ia com outros, que gosta de outros “cocks”. Ela na verdade não existe, está morta. Existe apenas na cabeça destorcida da personagem que Vincent Gallo veste (será ele próprio?).
Se calhar a cena que se vê de sexo oral, explicito, nunca existiu porque a rapariga supostamente está morta, se calhar o Vincent Gallo não é nenhum realizador, é um frustado sexual que necessita de mostrar os seus dotes físicos através de uma mamada, talvez todos nós espectadores (os que viram o filme) somos uns Zé Ninguéns de Willem Reich que aplaudimos a masturbação real de um realizador num filme que nos mostra como sendo uma obra-prima.
Será que gostei? Nem por isso, apesar de ter uma fotografia muito interessante e a própria estória ter o seu interesse mas é aqui que se nota a presença de um bom realizador e de um que vive as custas de um bom filme que fez por acaso.

4.07.2004

Que mais há a dizer? Creio que a imagem diz tudo? Acho que não mas este pequeno olhar cativante leva-nos para o que se segue, o filme.
Tal como diz a tradução portuguesa “vida moderna” (“Playtime” no inglês) o filme é sobre isso e sua caricatura. Uma caricatura sobre um admirável mundo novo supostamente todo é ordenadinho, perfeito, sem erros ou defeitos mas que na realidade não existe, por mais que se tente.
O filme começa com a estranheza que um tal de sr. Hulot presencia ao se deparar com uma suposta Paris ultra-moderna, com edifícios funcionais (apenas para as estranhas pessoas que lá vivem e trabalham), o exemplo do apogeu da técnica e da ciência. O sr. Hulot perde-se e não consegue realizar algo, algo que nunca se chega realmente a perceber o que era durante todo o filme (parece que apenas anda na tela para nos divertir). A parte final do filme termina com a caricatura da abertura de um novo restaurante onde nada está ainda pronto mas que devido a estar localizado no admirável mundo novo tem que estar aberto no dia previsto. Como se prevê, nada sai bem mas as personagens aparentam felicidade nesse caos que Tati constrói ao som de um jazz viciante e hipnótico.

Na verdade o admiravel mundo novo é um mero brinquedo nas mãos de Jacques Tati.

Interessante! É uma palavra ambígua, eu sei.
O filme também o deve ser em termos de receptividade.
Como descreve-lo? Bem, algo como uma animação a tentar imitar os antigos desenhos animados da Disney, nos seus primórdios, onde as personagens são disformes com a intenção de caricaturar certas pessoas. O mesmo acontece neste filme, onde existe um cão que parece uma ovelha e com neurose aos comboios, uma avó obcecada com o neto, este por sua vez com as corridas de ciclismo, um trio de mulheres cantoras e um mundo que ao mesmo tempo nos parece desagradável de se viver como por outro lado nos impele para ele.
Por outro lado o filme, apesar de ter músicas, não é falado e perde um pouco com isso porque poderia dar mais alento aos já disformes e engraçadas criaturas produzidas por Sylvain Chomet.
Se não vos apetecer estar numa esplanada a beber um fino ou desagradados com o mau tempo que se aproxima dêem um pulo a uma sala de cinema e espreitem esta pequena maravilha.